segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Alexandra




A noite sem lua deixava São Paulo ainda mais entregue às próprias luzes. Do alto do Terraço Itália, Alexandra observava a cidade enquanto o vento fresco lhe afastava os cabelos do pescoço. Gostava daquela altura. Lá embaixo, milhares de pessoas procuravam alguma coisa. Companhia, prazer, uma desculpa para não voltar para casa. Sempre havia alguém disposto a confundir perigo com uma noite inesquecível. São Paulo era seu berço, seu porto seguro. Alexandra conhecia seus caminhos e sabia onde encontrar o que precisava. “Que horas você marcou?”, perguntou Jorge. Ela continuou olhando para a cidade. “Está ansioso por mim ou pelo jantar?” “Você disse que eu precisava aprender.” “E precisa. Começando pela paciência.” Jorge acompanhou o movimento de sua mão quando ela ajeitou o corpete vinho. O tecido delineava os seios, deixando à mostra a pele que a jaqueta de couro não cobria. A calça preta acompanhava suas curvas até desaparecer dentro das botas de salto. Alexandra tinha um metro e sessenta e cinco, mas raramente alguém se lembrava de sua altura depois de olhar para ela. Percebendo a distração, aproximou-se. “Você está olhando para o lugar errado, novato.” Jorge ergueu os olhos. Ela sorriu, satisfeita com o pequeno constrangimento. “Não importa a hora. Estou morta de fome.” Riu baixo. “Morta. Ainda me divirto com isso.” “Você não sente pena deles?” Alexandra inclinou a cabeça, estudando-o por um instante. “De alguns. Por isso escolho.” “E esse?” “Tadeu?” O nome pareceu lhe trazer um gosto antecipado à boca. “Casado. Bate na esposa, humilha, ameaça. Depois aparece com alguma desculpa e espera que ela agradeça por ele ter voltado para casa.” “Como você sabe?” “Ele fala bastante quando quer impressionar uma mulher. Só precisei deixá-lo acreditar que eu estava impressionada.” Alexandra voltou ao parapeito. Jorge se colocou ao lado dela. “Tadeu gosta de se sentir no comando”, continuou. “Escolheu o horário, sugeriu o lugar. Eu deixei. Está convencido de que esta noite vai fazer comigo tudo o que imaginou.” “E você?” Ela olhou para ele por cima do ombro. “Também tenho meus planos.” O sorriso revelou a ponta de um canino. Jorge baixou os olhos para sua boca, e Alexandra não teve pressa de esconder os dentes. Passou a língua por um deles, imaginando o primeiro contato com a pele de Tadeu. O calor do pescoço, a pulsação sob os lábios. Gostava daquele breve momento em que o corpo ainda recebia sua aproximação como uma promessa. Depois, o sangue. Precisou fechar a boca. A fome começava a atrapalhar a conversa. “A mulher dele deveria agradecer a você?” “Não sei. Provavelmente vai chorar.” A resposta saiu sem o humor de antes. “Mesmo depois de tudo?” “Mesmo depois de tudo. Ela ainda espera alguma coisa dele.” Alexandra alisou uma dobra na manga da jaqueta. “Eu daria uma festa. Mas o luto é dela. Não vou escolher isso também.” “Só vai escolher quando começa.” Ela encarou Jorge. Então sorriu devagar. “Está aprendendo.” “Você fala como se estivesse fazendo um favor.” “Estou jantando, querido. O favor é uma consequência.” Jorge soltou uma risada, apesar de si mesmo. “E a fada madrinha?” “Deve estar ocupada. Mandou alguém com mais apetite.” Uma rajada de vento abriu a jaqueta de Alexandra. Ela a fechou sem pressa e se aproximou de Jorge para acertar a gola da camisa dele. Seus dedos demoraram um pouco além do necessário. “Quando ele chegar, deixe que olhe. Que fale. Não faça essa cara de quem já sabe como a noite termina.” “Você gosta disso.” “De quê?” “De deixá-lo acreditar.” Alexandra manteve os dedos na gola, perto do pescoço dele. “Gosto de ver até onde um homem vai quando acha que recebeu permissão.” Jorge sustentou seu olhar. Dessa vez, ela foi a primeira a se afastar. O celular vibrou dentro da jaqueta. Alexandra leu a mensagem e seus lábios se curvaram. “Ele chegou.” “Vai cair como um patinho.” Ela guardou o aparelho. “Como um galo ao molho pardo.” Antes de seguir para a porta, lançou a Jorge um último olhar. “Venha. E tente prestar atenção em alguma coisa além do meu decote.”




                                                            (Andréa Narita)




5 comentários:

  1. Adoro os contos da Alexandra, esse já tinha visto, mas valeu apena ver de novo!!!
    Aguardando sempre as cenas do próximo capítulo!!

    ResponderExcluir
  2. uau que show de palavras andrea continue assim mesmo o que produziu tanto la no outro que vamos acompanhar sempre mais e melhor sejamos nos movedores de um blog novo com o talento que deixamos la para aqui agora seguri mais forte como antes

    ResponderExcluir
  3. CARAMBA ADOREI O POSTER...

    ANDREA ATUALIZE SUA LISTA DE AMIGOS PARA DAR MAIS VIDA AO BLOGGER...PARA QUE TENHA MUITAS VISITAS...
    A ""MINHA LISTA DE BLOGS""" É O "CORAÇÃO" DO BLOGGER...

    ABRAÇOS

    BRUNO

    ResponderExcluir
  4. Acho que todas nós temos um pouquinho de Alexandra rsrsr.. como sempre muito boom, fui lendo e me sentindo do lado dela rsrs !

    Uhul consegui comentaar rs... Bjs gatona.

    ResponderExcluir
  5. Bom dia Andrea,curto muito os barbudinhos do ZZ,boa lembrança.Este conto vai render,quando vi a imagem, de cara, pensei em colocar o dedo para ela apertar o nó,...mas depois me lembrei dos caninos de Alexandra e desisti hehehehe

    ResponderExcluir