A noite sem lua deixava São Paulo ainda mais entregue às próprias luzes. Do alto do Terraço Itália, Alexandra observava a cidade enquanto o vento fresco lhe afastava os cabelos do pescoço. Gostava daquela altura. Lá embaixo, milhares de pessoas procuravam alguma coisa. Companhia, prazer, uma desculpa para não voltar para casa. Sempre havia alguém disposto a confundir perigo com uma noite inesquecível. São Paulo era seu berço, seu porto seguro. Alexandra conhecia seus caminhos e sabia onde encontrar o que precisava. “Que horas você marcou?”, perguntou Jorge. Ela continuou olhando para a cidade. “Está ansioso por mim ou pelo jantar?” “Você disse que eu precisava aprender.” “E precisa. Começando pela paciência.” Jorge acompanhou o movimento de sua mão quando ela ajeitou o corpete vinho. O tecido delineava os seios, deixando à mostra a pele que a jaqueta de couro não cobria. A calça preta acompanhava suas curvas até desaparecer dentro das botas de salto. Alexandra tinha um metro e sessenta e cinco, mas raramente alguém se lembrava de sua altura depois de olhar para ela. Percebendo a distração, aproximou-se. “Você está olhando para o lugar errado, novato.” Jorge ergueu os olhos. Ela sorriu, satisfeita com o pequeno constrangimento. “Não importa a hora. Estou morta de fome.” Riu baixo. “Morta. Ainda me divirto com isso.” “Você não sente pena deles?” Alexandra inclinou a cabeça, estudando-o por um instante. “De alguns. Por isso escolho.” “E esse?” “Tadeu?” O nome pareceu lhe trazer um gosto antecipado à boca. “Casado. Bate na esposa, humilha, ameaça. Depois aparece com alguma desculpa e espera que ela agradeça por ele ter voltado para casa.” “Como você sabe?” “Ele fala bastante quando quer impressionar uma mulher. Só precisei deixá-lo acreditar que eu estava impressionada.” Alexandra voltou ao parapeito. Jorge se colocou ao lado dela. “Tadeu gosta de se sentir no comando”, continuou. “Escolheu o horário, sugeriu o lugar. Eu deixei. Está convencido de que esta noite vai fazer comigo tudo o que imaginou.” “E você?” Ela olhou para ele por cima do ombro. “Também tenho meus planos.” O sorriso revelou a ponta de um canino. Jorge baixou os olhos para sua boca, e Alexandra não teve pressa de esconder os dentes. Passou a língua por um deles, imaginando o primeiro contato com a pele de Tadeu. O calor do pescoço, a pulsação sob os lábios. Gostava daquele breve momento em que o corpo ainda recebia sua aproximação como uma promessa. Depois, o sangue. Precisou fechar a boca. A fome começava a atrapalhar a conversa. “A mulher dele deveria agradecer a você?” “Não sei. Provavelmente vai chorar.” A resposta saiu sem o humor de antes. “Mesmo depois de tudo?” “Mesmo depois de tudo. Ela ainda espera alguma coisa dele.” Alexandra alisou uma dobra na manga da jaqueta. “Eu daria uma festa. Mas o luto é dela. Não vou escolher isso também.” “Só vai escolher quando começa.” Ela encarou Jorge. Então sorriu devagar. “Está aprendendo.” “Você fala como se estivesse fazendo um favor.” “Estou jantando, querido. O favor é uma consequência.” Jorge soltou uma risada, apesar de si mesmo. “E a fada madrinha?” “Deve estar ocupada. Mandou alguém com mais apetite.” Uma rajada de vento abriu a jaqueta de Alexandra. Ela a fechou sem pressa e se aproximou de Jorge para acertar a gola da camisa dele. Seus dedos demoraram um pouco além do necessário. “Quando ele chegar, deixe que olhe. Que fale. Não faça essa cara de quem já sabe como a noite termina.” “Você gosta disso.” “De quê?” “De deixá-lo acreditar.” Alexandra manteve os dedos na gola, perto do pescoço dele. “Gosto de ver até onde um homem vai quando acha que recebeu permissão.” Jorge sustentou seu olhar. Dessa vez, ela foi a primeira a se afastar. O celular vibrou dentro da jaqueta. Alexandra leu a mensagem e seus lábios se curvaram. “Ele chegou.” “Vai cair como um patinho.” Ela guardou o aparelho. “Como um galo ao molho pardo.” Antes de seguir para a porta, lançou a Jorge um último olhar. “Venha. E tente prestar atenção em alguma coisa além do meu decote.”
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Desirée
Chuva, relâmpagos, o ventinho batendo na janela, e o celular que não parava de vibrar ....Desirée alcança o telefone com a mão esquerda, enquanto seu esqueleto continua de bruços, nua.... de repente, um braço forte a enlaça em meio a penumbra. Ela atende o telefone.
_Fala!....Putz, agora!?!?!Não, tô numa reunião chata de condomínio às 4:00 da madrugada....tava justamente pensando em receber um telefonema seu, assim, para me tirar desse marasmo!!!!...Tô aí em 30 minutos....Câmbio desligo!
Humberto abre os olhos, senta na cama e olha o relógio (4:00 a.m)
Já em de pé, ela procura sua calça, onde será que a deixou na noite passada????... só se lembrava de ter começado a tirar a roupa na entrada do apartamento, rs. Que noite!!! mesmo depois de um ano de namoro, a imaginação dos dois se mantinha vulcânica...rs. Um olhar de relance...
_ O que foi gatinho? Não fica assim, depois do meu turno, eu vou pra casa, porque minhas plantas já devem estar sentindo minha falta....faz 3 dias que não as vejo, não falo com elas...porque você não me espera lá com um jantar gostoso?! que acha?
Desirée senta em seu colo, o enlaça com os braços, olhe bem dentro de seus olhos, mordisca sua orelha e desce a mão pelo seu peito nu....
_ Para Dê....senão não a deixo partir....
-Hahahaha...preciso ir...você sabe, meu gatinho!
Levantando e abotoando a camisa carmim, ajusta o coldre, pega a arma, e joga um beijo no ar, passando a lingua entre os dentes e piscando ....
_O que foi ?
_Porque não posso ter uma namorada normal?
_Ué, eu tenho três braços? Cinco pernas? Falo aramaico?
_Uma que não me deixe na madrugada, que se meta com bandidos perigosos, que não me peça cerveja e que não discuta futebol comigo...que seja doce e meiga somente!!
Ela suspira fundo calçando as botas e fechando o zíper...
_ Ah, sei lá, tenta na internet, ou nos classificados...quer saber, não tenho paciência para D.R . ok!!!
Ele sorri e cai na cama novamente.... voltando a dormir.
_ Gatinho, faz um jantarzinho maravilhoso, para nós!...O mestre cuca aqui, é você!!!. deixa os bandidos comigo , ok!!!
_ Quem mandou eu me meter com uma xerife! Que quer de sobremesa!!
Quase na porta de saída, Desireé para, vira e olha para ele....
_ Sobremesa? Eu levo a sobremesa!!!!....e dasabotoa o segundo botão deixando a mostra o sutiã pérola rendado....e o olhando com aquele olhar que só ele reconhece....joga um beijo no ar e bate a porta....
Andréa C Narita
quarta-feira, 30 de março de 2016
Perfeitamente Imperfeitos
Em uma época em que tudo ofende, magoa, desperta ira, salto dessa condução, ou seria condição? Sim, sou de um tempo em que todo coleguinha de escola tinha uma característica que chamava atenção e como em todo coletivo infantil infame, gerava brincadeiras de mal gosto. Mas será mesmo? Claro que algumas pessoas mais sensíveis se amoavam nos cantos, mas a grande maioria, entrava na sinistra diversão. Sou à favor da máxima : "O que não me mata, me fortalece".
Tenho saudade do tempo onde referência de cor, credo, etnia ou classe social, eram apenas arquétipos, que não separavam amizades.
A "zoeira" era sadia, e como em amizade masculina, onde existe muito mais tolerância e fidelidade que em qualquer outra, tudo terminava em brincadeira.
Essa geração cresceu forte, em sua maioria idônia, mas acho que em algum ponto o caldo desandou de certa forma, que fez com que esses mesmos indivíduos, agora adultos, criassem uma nova geração sem limites, meio cristal, onde tudo atinge ou gera polêmica. Talvez sejam, fatores externos ou os tempos que realmente mudam. Logo entraremos na Era de Aquário, talvez seja isso, mas realmente sinto falta de conversas reais, comportamentos sinceros, da insensatez sadia que não matou nenhum de nós, fomos felizes de uma forma que não vejo a nova geração ser. Nunca saberão o que é encontrar alguém só pela intuição de saber onde encontrá-la, sem o auxílio de algum aplicativo tecnológico. Eu sei que cada época tem seus prós e contras, mas o que não se pode negar é que, os anos 80 até meados dos 90 foram mágicos. Talvez selvagem para algumas pessoas do mundo moderno, mas perfeitamente imperfeito.
( Andréa C Narita)
sexta-feira, 4 de março de 2016
O que é felicidade? Cada um tem a sua....
Felicidade é diferente para cada um, tem uma cor, um sabor....
Para mim, é poder ser quem sou ....
É poder ter tido tudo o que desejei, e ainda querer mais....
Sou grata ao universo, pois me deu todas as dádivas possíveis...
A presença da fertilidade amorosa e feminina...
A dor do aprendizado...
A alegria do presente dado...
A riqueza do conhecimento
E a certeza de que quanto mais aprendo, mais tenho a aprender.
Sou grata a chuva que leva o excesso, o dispensável
Sou grata ao vento que traz o que preciso, o desejável
Sou grata por perceber que tenho o que atraio
Sou rica pois possuo o sincero, o que é mais raro.
(Andréa C Narita)
Para mim, é poder ser quem sou ....
É poder ter tido tudo o que desejei, e ainda querer mais....
Sou grata ao universo, pois me deu todas as dádivas possíveis...
A presença da fertilidade amorosa e feminina...
A dor do aprendizado...
A alegria do presente dado...
A riqueza do conhecimento
E a certeza de que quanto mais aprendo, mais tenho a aprender.
Sou grata a chuva que leva o excesso, o dispensável
Sou grata ao vento que traz o que preciso, o desejável
Sou grata por perceber que tenho o que atraio
Sou rica pois possuo o sincero, o que é mais raro.
(Andréa C Narita)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Expressão sentida
Talvez eu não saiba realmente
Ou simplesmente por pura inocência
Expressar de maneira envolvente
É quase uma incoerência.
Formas efusivas, apelos incandescentes
As palavras faltam
Morrem bastardas descendentes
De meu sentimento insólito
Não pense que não sofro
Ou simplesmente não ligo
É um afã , um sopro
De meu maior inimigo
Aquele ímpeto sarcástico
Maldoso...
Orgulho dramático
As pontes não são facilmente construídas
O espaço entre mim e as sensações
Se mantém destruídas
Quem sabe um dia eu possa realmente
Vencer meu maior inimigo
Sorrirei livremente
E serei novamente meu amigo
( Andréa C Narita )
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
O mundo precisa de menos frescura e mais verdade.
Hoje acordei com vontade de sair dessa teia, de libertar meu corpo e principalmente minha mente dessa tempestade desconexa que se tornou viver em meados do século XXI. Tomando meu café, minha mente parece se enraivecer com tamanha doença que toma parte do nosso momento.
Você tem acesso a tudo, mas não pode admitir que o faz. É feio, mesquinho, démodé, ou melhor ainda, politicamente incorreto. É errado admitir que utiliza a internet. Queimará viva no inferno então, se tiver algo ou gozar de algo, fruto do seu trabalho, mas que a maioria não tem.
Acho graça nos discursos sobre deixar a vida virtual e ir viver a vida real....Claro, que deve existir um equilíbrio, o real jamais deve ser deixado para segundo plano, mas poxa!!!!
Antigamente ninguém postava nada, simplesmente porque demorava um tempo até se conseguir revelar o rolo de 36 poses que ao final se descobria ter sido um fiasco. Qual o problema em querer registrar um momento? Ah, tem gente que exagera, posta mentira....mas peraí!!! Isso é problema de quem??? De quem tá postando ilusão ou de quem está se portando como fiscal do rabo alheio?
Existe uma preocupação enorme em esconder isso ou aquilo, pra dar certo né??? Que piada, se algo não dá certo na sua vida, é única e exclusivamente por algum erro seu e não por causa de ninguém. Seja adulto o suficiente para tomar responsabilidade sobre seus atos, enganos. Aí que me pergunto, e quem vive a ilusão todos os dias, mesmo sem a muleta internauta? Sim, aquelas pessoas que adoram mostrar uma vida perfeita, com hábitos perfeitos, mas que nunca se mostrarem como realmente são....vixe!!!!
Gosto de gente de verdade, que me cumprimenta por vontade, que até não concorda com meus hábitos, mas releva, pois isso não interfere no modo de interação. Gosto de gente que comete erros, deslizes e sabe reconhecer, pedir desculpa e dar risada. A vida é curta para passar o tempo se achando superior, ignorando por puro desdém, ou coisa pior...Gosto de gente que é o que é, sem medo de ser feliz, nem de chocar, pois é tão convicta de si que se torna feio ir contra sua autenticidade.
Feio pra mim é falar pelas costas, se incomodar com a felicidade alheia. Sim, porque só se torna indesejável quem se destaca de alguma forma. A liberdade fere, principalmente ouvidos e olhos famintos pela mesmice. Que não conseguem enxergar que ninguém é feliz vivendo de personagens.
O mundo precisa de menos frescura e mais verdade!
Andréa C Narita
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Lançamento do Livro Palavras do Brasil II
É com grande alegria que venho divulgar esse projeto no qual eu faço parte como escritora. O lançamento do Livro Palavras do Brasil II, da Editora Casa Cultura. Sinto um enorme prazer em participar deste livro! O lançamento aqui em São Paulo será neste sábado, e claro estarei lá!
Andréa C Narita
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